16/06/2014

Aneel e Anatel têm um papel imprescindível para o desenvolvimento da indústria nacional de Internet das Coisas (IOT). Para a presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Maria Luisa Leal, as redes elétricas inteligentes serão as primeiras a entrar na IOT e o governo está estudando e criando as normas necessárias para o país ingressar neste mundo.

E as duas agências reguladoras têm um papel fundamental, entende a executiva. A Aneel, para fazer uma regulação que permita a indústria local desenvolver tecnologia própria e fabricar aqui, em resposta ao risco de uma importação plena. E a Anatel precisa lidar com a questão das redes de telecom e suas frequências. A executiva também dá o seu recado à indústria nacional: "é preciso ser competitiva e exportar".

Tele.Síntese – Como o governo está se estruturando para estimular e traçar uma política para a Internet das Coisas (IOT)?

Maria Luisa Campos Machado Leal – A gente começou a trabalhar, primeiro, com o smart grid. As redes elétricas inteligentes são um dos itens para a Internet das Coisas (IOT). Começamos a fazer pesquisas sobre como outros países e os diferentes estados brasileiros estão tratando da questão.

Tele.Síntese – Quais os órgãos do governo federal que estão envolvidos com essa questão?

Maria Luisa – Um grupo de governo com integrantes da Aneel, Anatel, MiniCom, Mdic, MCTI, além da ABDI. Estamos discutindo o que está acontecendo. Do nosso ponto de vista, da ABDI, o que nos interessa é a participação da indústria brasileira. As agências e os demais ministérios podem fazer uma regulamentação e todo mundo importar tudo. Seria muito fácil. Mas não é o que queremos.

Tele.Síntese – Há experiências práticas no Brasil?

Maria Luisa – A Cemig, em Minas Gerais, por exemplo, está testando uma cidade com Smart Grid em Sete Lagoas. Búzios já é mais do que uma cidade com Smart Grid, já chega a ser uma cidade inteligente, com muito mais serviços de IOT, que envolve outras áreas. Estamos acompanhando 12 experiências no Brasil.

Tele.Síntese – E qual é a preocupação da ABDI?

Maria Luisa – Que este projeto avance sem que a indústria brasileira esteja preparada com seus produtos, softwares e equipamentos. Se não tivermos competitividade, os produtos serão importados. No caso da energia elétrica, existe uma questão que se refere à modicidade tarifária, o que torna ainda mais importante que a indústria nacional esteja preparada para este movimento.

Tele.Síntese – A modicidade tarifária é uma questão não resolvida para as elétricas, não?

Maria Luisa – A modicidade tarifária significa que não se pode encarecer o custo da energia. Vamos tentar o máximo possível que os medidores de energia residenciais sejam nacionais. Ora, se os medidores não forem competitivos com os importados, vai-se impor um custo para os distribuidores, que vai repassar para a conta, rompendo-se o princípio da modicidade tarifária. A indústria nossa tem que ser competitiva.

Tele.Síntese – Consegue-se criar um parque industrial com esta desindustrialização do setor?

Maria Luisa – O medidor é um pedacinho do Smart Grid. Há produtos dentro da residência, concentradores, no meio do caminho. E equipamentos e sistemas muito maiores nas distribuidoras e até mesmo nas geradoras. Se se fizer um uso mais racional de energia, pode-se precisar de menos reservatórios, de menos fontes geradoras, racionalizando-se o sistema muito mais. Com automação em casa, o usuário começa a administrar sua luz com mais inteligência.

Tele.Síntese – Sim, nos Estados Unidos o consumidor residencial está vendendo a sua própria energia.

Maria Luisa – Isto. Posso programar a minha máquina de lavar para bater à noite, pois posso administrar os momentos com tarifa menor. Há todo um conjunto de inteligência dentro de casa que pode ajudar muito. Isto tudo são equipamentos, softwares, coisas que o Brasil tem. O problema são os semicondutores, onde grande parte é importada, e vai aumentar este problema com a Internet das Coisas. Para se ter inteligência dentro de casa, é preciso ter sensor e microeletrônica misturados. A equipe começou a trabalhar muito no Smart Grid e hoje toda a conversa vai para IOT, pois vai ter sensor nos carros, na rua, nas pessoas. O estado da arte da tecnologia hoje já é factível ter muita inteligência na cidade.

Tele.Síntese – E o preço dos sensores tem caído muito, não?

Maria Luisa – Sim. E quando colocamos na mesa a Anatel e Aneel, as agências reguladoras de telecom e de energia, temos todo o respeito pelo que elas vão regular as áreas delas. Não vamos interferir na regulação, mas precisamos chamar atenção que há uma parte da regulação que precisa pensar na indústria brasileira e na inovação. Por exemplo: se a regulação estabelece que todos os medidores, a partir de uma determinada data, têm que ser inteligentes (pois eletrônicos já são), não haveria indústria para fornecer, com uma forte importação. Mas pode-se programar essa implementação, de maneira a permitir que a indústria nacional fabrique para o nosso mercado. Uma programação com as agências reguladoras e distribuidoras. A indústria quer um horizonte…

Tele.Síntese – E tem-se conseguido fazer esta programação?

Maria Luisa – É preciso avançar muito com a Aneel, até porque há a questão da modicidade tarifária. No Rio de Janeiro, a maior parte das perdas elétricas não é técnica, mas é motivada por "gato". Se deixar de fora na regulação a exigência de colocar medidores nas residências de toda baixa renda, a indústria nacional estará perdendo um mercado enorme. Por outro lado, quem é que vai querer colocar um medidor, se hoje não paga nada pela luz? E há questões também que precisam ser resolvidas com a Anatel.

Tele.Síntese – Qual é a demanda sobre a Anatel?

Maria Luisa – O Smart Grid transmite informações por wireless e precisa de banda. E a ideia inicial é que o medidor que está na residência da pessoa transmita (a informação) por wireless até um concentrador, e dali para a frente iria por fibra óptica. Mas isto envolve a empresa de telefonia.

Tele.Síntese – Mas a concessionária de energia elétrica pode ter licença de telecom para isto?

Maria Luisa – Pode, mas a distribuidora tem a área de concessão de energia, e nesta área de concessão tem muitas operadoras de celular brigando. E as distribuidoras ainda estão testando os diferentes modelos de negócios.

Tele.Síntese – A ABDI tem um levantamento de quais são os produtos que o Brasil já poderia fabricar?

Maria Luisa – Há problemas com os componentes. Tele.Síntese – Mas este é um dilema de toda a indústria brasileira de eletrônica. Maria Luisa – É. Pelo menos em breve teremos a Six, que tem entre seus sócios a Corporación América, e parceiros como a IBM, BTG, BNDES e terá capacidade para produzir chip para várias áreas como sensores e RFID.

Tele.Síntese – Você acha que ainda cabe ao Brasil, nesta etapa da vida, estimular a fabricação de chips internamente?

Maria Luisa – Entendemos que o que faz sentido é ter um novo posicionamento feito a Six, produzindo chip dedicado, não como commodities, mas chips de alta performance, especiais. A Six vai conseguir produzir chips de 80 nano, uma fronteira importante da tecnologia. Mas reconheço que a briga é difícil.

Tele.Síntese – E aí o déficit da balança comercial brasileira vai para os píncaros?

Maria Luisa – Se se começa a importar todos os medidores, a balança ficará ainda mais difícil. Mas existem no Brasil empresas que produzem medidores, e que poderão produzir os medidores inteligentes. Na verdade se não tivermos empresas exportadoras, também não resolve.

Tele.Síntese – Além da produção local, alguma outra agenda?

Maria Luisa - Mas a Internet das Coisas também traz outras preocupações. A importação de equipamentos exige um sistema de segurança enorme. Também estamos conversando com o Exército sobre como lidar com a questão da segurança cibernética.

Fonte: Miriam Aquino - Telesíntese